PATRIMÔNIO HISTÓRICO - UM BOM NEGÓCIO PARA TODOS
Possibilidades de iniciativa privada com interesse público
Por Péricles Antônio Mattar de Oliveira*
A questão do patrimônio histórico perpassa diversos setores da sociedade, trazendo ao debate seu
papel na contemporaneidade. O conjunto do patrimônio histórico engloba todos os bens culturais
que possuem representatividade para a história e a identidade da sociedade, quer seja por sua
exemplaridade, quer por sua singularidade.
O conceito de patrimônio histórico tem evoluído ao longo do tempo e a busca de identidade do
homem urbano em meio à avalanche de informações dos mais variados setores e dos mais variados
matizes - decorrentes do processo de mundialização da cultura e "facilitadas" pelo avanço da
tecnologia, que proporciona o acesso à informação em tempo real, pela difusão quase que
simultânea à ocorrência dos fatos - tem tirado do homem moderno o sentido de pertencimento.
Na busca de sua identidade, o homem recorre, inicialmente, ao patrimônio material no qual se
inserem os bens edificados e os objetos que tiveram significado na formação de nossa identidade
cultural.Num segundo momento, busca-se o resgate do intangível, o patrimônio imaterial, no qual se
inserem as festas, as celebrações, os lugares e os saberes que fazem parte de nossa formação
cultural e que, de alguma forma, encontram-se latentes no inconsciente coletivo. Pois bem, o
resgate dessa história é fundamental, não só sob o aspecto cultural como por sua função social.
As construções históricas que, no passado, tiveram momentos de glória na vida das cidades e hoje
se encontram abandonadas e em avançado processo de deterioração precisam ser recuperadas,
não só como resgate da cultura e preservando traços de uma época mas permitindo, também, a
possibilidade do estabelecimento de novos usos, sejam eles comerciais ou residenciais.
Antigos prédios comerciais que, no passado, abrigaram lojas e escritórios, hoje podem ser utilizados
como residências para a população de baixa renda cumprindo, assim, uma importante função social
e contribuindo para a redução do déficit habitacional.
A existência de infra-estrutura urbana no entorno desses imóveis torna sua recuperação e
utilização muito menos onerosas para a sociedade que a construção de novas moradias. O Projeto
Tiradentes, no Rio de Janeiro é um ensaio desse processo de revitalização urbana e contou com
aporte de recursos da Caixa Econômica Federal (CEF) e do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID). O projeto de revitalização do antigo "Bairro do Recife" tenta unir o resgate
histórico cultural com a sustentabilidade do patrimônio, pela criação de pólos de empresas de
tecnologia de informação e exportadoras.
Já a utilização de imóveis de valor histórico para fins culturais tem sido lugar-comum nas grandes
cidades, como é o caso dos Centros Culturais do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro e em São Paulo
e, mais recentemente, do Santander Cultural, em Porto Alegre.
Em Belo Horizonte, uma boa experiência foi o patrocínio da restauração da Casa do Conde de Santa
Marinha por uma empresa promotora de eventos, sem a utilização de lei de incentivo. O imóvel que,
no final do século XIX, abrigou um dos construtores da cidade, hoje sedia eventos culturais
importantes como a Casa Cor, o ExpoGourmet e o Festival Internacional de Circo, entre outros. A
construção, que está inserida no conjunto da Praça Rui Barbosa, pertence ao espólio da Rede
Ferroviária Federal e teve, por solicitação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico
de Minas Gerais (IEPHA/MG) com o apoio da Câmara dos Vereadores, sua comercialização
condicionada como "venda qualificada", pela qual parte dos imóveis adquiridos através de leilão
terão, obrigatoriamente, que abrigar espaços para fins de utilização cultural.
Em todo o Brasil, vários edifícios de estações ferroviárias têm sido restaurados para abrigar cafés
culturais, cinemas, locais para exposição, salas de aulas especializadas, bibliotecas, enfim uma
gama enorme de possibilidades de uso. A recuperação de praças históricas é outro bom exemplo de
restauração, muitas vezes ligada à iniciativa privada e com enorme retorno institucional. Um bom
exemplo é a restauração da Praça da Liberdade, também em Belo Horizonte, pela empresa MBR, que
destina recursos anuais para a manutenção do espaço e tem, por essa atitude, amplo
reconhecimento público.
A escassez de recursos públicos orçamentários transforma em principais fontes de financiamento
para obras de restauração do patrimônio cultural as leis de incentivo à cultura municipais, estaduais
e federal (esta última incluiu, recentemente, a área de patrimônio no rol das que têm cem por cento
de isenção tributária) e as fundações privadas e bancos públicos como a CEF, o Banco de
Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e o BID que, pelo Programa Monumenta, destina recursos
próprios com contrapartida dos governos federal, estadual e municipal para a conservação do
patrimônio.
Todos essas possibilidades podem estar acopladas a projetos públicos como locais de execução de
políticas de cultura e a projetos privados de comunicação empresarial através do marketing cultural,
principalmente com responsabilidade social. É fato que a recuperação de bens culturais, que
ocupam lugar importante no coração das comunidades, é muito bem percebida pelos consumidores
cidadãos.
*Administrador e Gestor Cultural